“Beleza é a única coisa”, segundo O Demônio de Neon.

Existem filmes que suas contribuições a sétima arte são evidentes, outros nos fazem ter receio de afirmar qualquer coisa sobre eles, temendo ter interpretando-os de maneira equivocada.  Para mim O Demônio de Neon entra facilmente no segundo grupo, sendo um dos filmes mais comentados nos últimos meses e esses comentários habitavam o espectro do altamente revolucionário até uma porcaria vazia e sem sentido.

É evidente o fetiche de Nicolas Winding Refn tem pela forma, isto é, a estética de seus filmes em detrimento de outros recursos audiovisuais, me arriscando a compará-lo a Tarantino embora esse último simplesmente junte e cole referências aleatórias, coisa que não pode ser afirmada de Refn, não pelo menos nesse filme. Porém como faz muito tempo que o autor desse texto tenha assistido à Drive e ainda não tenha visto outros filmes do diretor, essa análise se limitará a obra em si mesma, sem alguma comparação ou paralelo a outras obras do autor.

O filme nos conta a história de Jesse (Elle Faning), uma bela jovem vinda do interior a Los Angeles para tentar o sucesso na indústria da moda. A medida que vai galgando os degraus da fama e do reconhecimento do meio, a personagem enfrenta a inveja daqueles que a rodeiam, o sentimento que resultará em acontecimentos sombrios para a vida da protagonista.

Vale ressaltar a composição estereotipada ou plástica de todas as personagens, menos o fotógrafo-namorado que parece estar imune a ética da estética dos outros personagens e parece vislumbrar ou acreditar em algum valor imaterial.

Digo isso por que quero ressaltar um diálogo simples e rápido do filme, mas que para mim parece elucidar o que Refn propõe com esse filme. É a parte que logo depois da transformação da personagem, sua consagração, quando ela contempla os espelhos de neon numa espécie de atualização do mito de narciso, quando ela e sua equipe comemoram num restaurante.

Em certa altura do diálogo, o chefe de Jesse diz que “Beleza não é tudo, é a única coisa”. Essa proposição assertiva é o resultado de um breve experimento realizado por ele, utilizando o pseudo-namorado de Jesse. Depois de perguntar se uma das personagens é bonita, o rapaz responde que é bonitinha e então o chefe pergunta sobre Jesse e diz que essa sim tem a verdadeira beleza que é natural. O pseudo-namorado então diz que acredita que o que importa é o interior das pessoas e não aparência. O chefe então argumenta se não fosse a beleza de Jesse, o rapaz nem teria olhado para ela e concluí a máxima acima.

Nota-se que qualquer argumentação ou dialogo aqui não se aprofunda, mas para mim, isso também faz parte da proposta do filme que vai acabar num projeto paradoxal. Ora, o paradoxo parece ser o atual sintoma das produções hollywoodianas e aí você me pergunta porquê. Nos últimos anos foram produzidos vários filmes que denunciavam a forma inescrupulosa como funciona wall street em filmes como A Grande Aposta e O Lobo de Wall Street, porém esses mesmos filmes são financiados indiretamente pelo dinheiro dessa famosa rua.

O Demônio de Neon parece cair nessa mesma armadilha, todo o filme ensaia uma crítica ao culto de aparências, que para mim não só está voltado ao mundo da moda mas a toda a sociedade. Refn constrói o filme em cima desse fetiche e consegue nos seduzir. A fotografia em tons roxo-azulados com referências ao filmes giallo de Dário Argento até a violência altamente estilizada e a trilha encantadora não passam de uma armadilha. A crítica a obsessão da beleza se faz pela obsessão a beleza, sendo os personagens superficiais, vazios.

Embora haja alguma motivação do trio canibal no final, a antropofagia aqui significa a fome por beleza, a “ética da estética” contemporânea e o vazio de um significado interior.

E quando digo que O Demônio de Neon resulta em uma obra paradoxal é porque para fazer sua crítica ao vazio plástico da modernidade acaba “embalando” o seu filme nos mesmos caracteres desse vazio plástico.

Será então que o filme falha em seu objetivo, será que fazer uma crítica realmente era o seu objetivo¿. Na minha opinião, Refn pretende criticar essa obsessão pela beleza como se seu filme fosse, ele mesmo, esse armadilha bela que serve para “provar” a tese de que beleza é a única coisa que importa. Talvez se o diretor dinamarquês optasse por uma abordagem realista do drama de Jesse, o filme perderia sua força.

Pode-se objetar então que o filme é uma mera colagem de imagens bonitas, algo semelhante a uma masturbação estética de um diretor pretencioso. Podemos concordar que o filme não tem nenhuma substância mas se O Demônio de Neon não é uma grande obra-prima, já que não procura ser um filme acabado é pelo menos uma experiência paradoxal, já que nos faz questionar se o que nos leva a assistir filmes, bem como desfrutar de qualquer obra de arte, é simplesmente a procura irracional por beleza.

Nesse sentido, caímos na armadilha de O Demônio de Neon e gostamos.

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