O “outsider” e a rosa num mundo de concreto

Depois de um texto um tanto longo sobre Hail to the Thief, vamos nos debruçar agora sobre os videoclipes lançados das canções do álbum, pois atualmente o visual de um artista tem sido muito importante, senão mais importante que a música do mesmo, em alguns casos.

Andamos então na linha tênue e insinuante do audiovisual, propriamente dito, pois videoclipe não é cinema mas também não é música, seu nascimento foi estritamente comercial, mas ás vezes ele pode tomar a forma de arte e nos passar mensagens mais abstratas e concisas, livres de narrativa, como geralmente é feito no cinema.

Foram lançados, oficialmente, dois vídeos-clipes para a promoção de HTF e eles são: “There,There” (The Boney King of Nowhere) e “Go to Sleep “ (Little Man being Erased). Um vídeo corre na internet com uma animação para a música “2+2=5” (The Lukewarm) mas não é um vídeo oficial.

“There,There.” (The Boney King of Nowhere)

O primeiro single lançado pela banda em maio de 2003, tem um vídeo onde Thom Yorke é um viajante que anda por uma floresta escura e sonda seus moradores que são animais fofos, vivendo sua vida confortavelmente.

Na primeira cena, no que parece uma toca, dois esquilos fumam cachimbo e depois vemos uma ceia amigável entre vários bichos igualmente fofos e na terceira cena, vemos um adorável casamento entre gatos.

E no último segmento, Yorke encontra uma paletó branco e brilhante. Yorke o veste e trocas seus tênis esfarrapados por lindas botas pretas que encontrou em um buraco no topo de uma árvore.

Quando ele termina de vestir a nova indumentária, pela primeira vez vê corvos que vigiam seus movimentos de um alto galho. Yorke corre dos corvos que começam a perseguí-lo. Porém, enquanto corre, os sapatos aumentam de velocidade, aparentando serem mágicos, mas ao esparrar num galho, maleficamente estendido no chão, as botas saem de seus pés, que por sua vez, se prendem ao chão e Yorke transforma-se gradualmente em uma árvore.

Ora, o que essa fábula sombria quer nos dizer¿. Dissemos no texto anterior que essa canção fala sobre a ansiedade contemporânea e o vídeo clipe, se acertamos na nossa interpretação, seria a expressão visual do significado da canção.

Yorke é um viajante inseguro, um outsider, com roupas esfarrapadas, ele sempre encarnou muito bem essa personagem, desde Creep “What the Hell I Doing Here- I Don’t Belong Here” é a gênese e a síntese do alter ego de Yorke. Ele sonda a vida das pessoas comuns, fofas, belas e confortáveis com um pouco de medo, mas no fundo desejando fazer parte dessa doce harmonia.

Mas de certo modo, ele não é aceitável, ele não é perfeito e aqui entra a ambiguidade interpretativa de todo esse vídeo. O terno branco poderia ser um adorno de distinção social, algo pelo qual o viajante poderia mudar sua imagem diante dos “fofos”,o elixir que mudaria a vida do viajante, que faria ele ser finalmente aceito.

Entretanto, corvos não gostam da saída encontrada pelo viajante que tenta fugir das picadas dos animais. Os corvos vigiam o outsider e são uma barreira para as suas realizações, eles são como uma polícia vigilante que mantem a harmonia daquele pacato lugar, a custas de que os marginalizados fiquem ondem estão. Há uma linha bem definida de quem pode desempenhar qual papel no mosaico social e um “verme” ou “viajante” nunca poderá participar da comunhão dos coelhos.
Resta ao viajante que não soube qual é o seu lugar, ser petrificado.

Go to Sleep (Little Man Being Erased)

Esse é um vídeo explícito, com uma computação gráfica sólida, onde os transeuntes antes de mais nada, parecem seres inumanos de concreto. Yorke também é feito de concreto e canta sua canção em um banco de praça, perto de uma rosa, a única coisa no vídeo que é colorida.

Em um dado momento, os prédios circundantes começam a desmoronar, o que parece ser uma expressão visual do nosso apontamento do texto anterior sobre o seguinte verso: “nós não queremos acordar o monstro levando tudo”. O desmoronar e subsequente reconstruir é esse momento de alguém que tenta acordar para a sensação de irrealidade e dureza, representada no vídeo pelo CGI com texturas sólidas e cinzentas, que o rodeia mas que falha frente ao medo do monstro. Esse monstro não é mais nada que o poder do status-quo.

A rosa é única que emana vida nesse realidade, mas ninguém se importa com ela.
Podemos ver então, que os videoclipes acima são uma extensão da temática do álbum, que alinham-se perfeitamente as ambições artísticas de Yorke e companhia e que portanto fecham uma obra muito bem acabada.

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