“Melancolia” e o fim do mundo

 

 Um filme lançado em 2011, as vésperas do apocalipse previsto pelos maias em 2012 com uma protagonista depressiva. Pode haver uma proposta mais contemporânea que essa?. Não sabemos se Von Trier pensou numa história dessas para aproveitar todo o frisson de “fim do mundo” que tomou conta do planeta – e talvez ainda tome – nos últimos anos.

Melancolia (Lars Von Trier, 2011) é uma das mais belas obras de Trier que aqui abandona de vez o Dogma 95 para atingir um patamar estético estonteante a despeito da temática do filme.

O filme é dividido em duas partes, cada uma acompanha uma irmã, a primeira chamada Justine e a segunda Claire. A primeira acompanha Justine no dia de seu casamento. A noiva começa a noite radiante, mas ao passo em que na festa de casamento acontecimentos desagradáveis acontecem, Justine caí em uma lassidão e letargia surpreendentes para uma noiva. É a melancolia.

Claire, na segunda parte, é atemorizada pela notícia de que o planeta melancolia pode colidir com a terra e então o filme contrapõe as atitudes dissonantes das duas irmãs, Claire e o seu desespero e Justine, que depois do casamento passa a ficar deprimida, num estágio de serenidade niilista.

Trier sempre usa de simbolismos em seus filmes e aqui não é diferente. Desde de uma referência a Sade no nome de Justine até pinturas de Bruegel e a música de Wagner, todas no maravilhoso prólogo.

Todas essas referências ajudam a criar o estado de melancolia do filme que se acentua cada vez mais através da projeção.

Portanto, pode-se dizer que o casamento representa o sujeito frente as suas relações sociais e ritos de passagens que se mostram ilusórios quando são reveladas suas verdadeiras intenções. Justine pede a atenção de seus pais por toda a festa, mas enquanto sua mãe é fria e ríspida, lhe negando ajuda, seu pai se esquiva confortavelmente de qualquer conflito que sua filha possa externar, ao passo que Claire, sua irmã se preocupa se Justine fará uma cena e por último, Michael seu cunhado sempre a lembra o quanto gastou naquela festa.

Na segunda parte é representada a falibilidade da ciência quando Michael, marido de Claire a tranquiliza, dizendo que cálculos científicos asseguram que o planeta Melancolia não se chocará sobre a terra. Claire através de uma engenhoca construída por seu filho, tenta comprovar a teoria do marido e para sua infelicidade constata que o seu marido está errado. Ela então entra numa espiral de desespero.

Vale ressaltar que enquanto a primeira parte nos remete um desconforto, já que Justine percebe a alienação dos costumes sociais da própria vida, a segunda parte tem uma atmosfera de suspense, que é muito bem construída por Trier.

O medo crescente com que Claire enfrenta o fim iminente, transforma-se em desespero e aqui temos a oposição entre o desespero de Claire e a serenidade de Justine.

O mais importante é entender que Trier não trabalha a depressão como uma doença, mas como um desvelar do mundo, tal como ele é para o sujeito, que vê a fragilidade e futilidade de suas relações e a fabiilidade de qualquer ciência, o que nos remete a tragédia tal como idealizada por Schopenhauer. É como se Justine e depois Claire, tivessem rasgado o véu de maia e tenham finalmente contemplado o nada.

Porém Trier adiciona em Justine uma fala: “O mundo é Mal”. Aqui Trier aproxima-se de Sade que acreditava, que a virtude só leva a desgraças e que, portanto, deve-se praticar o mal, tal qual sua famosa personagem Juliette.

Então Trier nos apresenta aqui um filme de “fim-de-mundo” de uma perspectiva diferente, bebendo da estética romântica pessimista a mesclando com elementos sadeanos, nos brindando com uma visão pessimista de mundo e nossa insignificância dentro do todo do universo.

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