Deus da Carnificina e a Pedagogia

Ainda hoje vemos as fagulhas dessas luzes iluministas sobre o céu de São Paulo, onde estudantes ocupam escolas para elas não serem fechadas.

Mas o que tudo isso tem a ver com Deus da Carnificina? (DIR: Roman Polanski,2011). Ora, na trama dois casais nova-iorquinos reúnem-se para conversar sobre uma briga travada entre seus dois filhos. A fina camada de civilidade entre os casais vão se descascando até que tudo acaba em discussão e troca de impropérios.

O longa é uma adaptação da peça teatral da autora franco-iraniana Yasmina Reza e já teve inúmeras versões, inclusive uma brasileira.

O filme é fiel ao emular a mise-en-scène da peça, que se passa num único espaço e desprezando as outras ferramentas cinematográficas, aposta no roteiro e na interpretação dos atores.

Pode-se argumentar que como filme, Polanski deveria fazer uma adaptação mais fílmica, ou seja, usar as ferramentas próprias da linguagem cinematográfica citadas acima. Mas talvez o que chamou a atenção do lendário diretor – e de nós, o público – são os diálogos, tão interessantes e ácidos que se sustentam sozinhos e nos convidam para assistir esse filme.

Trata-se então de um filme pequeno – em todos os sentidos, pois tem apenas 79 minutos – e um filme de atores. Um filme que tem uma proposta totalmente simples de passar uma ideia. A mensagem em questão parece-nos bem clara de início, já que os personagens podem ser descritos como arquétipos contemporâneos.

Penélope (Jodie Foster) é a intelectual erudita-iluminista que acredita no poder civilizatório da cultura. A cena em que surta quando Nancy (Kate Winslet) vomita em sua coleção limitada de um pintor europeu demonstra sua verdadeira conduta. Não se preocupa com bem-estar da outra apenas com sua coleção. Mas deve-se objetar que a presente conclusão é forçada, mas Penélope é a personagem central da crítica da peça/filme. Ela representa a civilização ocidental e seus valores humanistas que como a personagem, parece sobreviver artificialmente e já estão com os dias contados.

Seu marido John (John C.Reilly) adota a postura da conciliação até seu momento limite e depois descasca todo o seu verniz liberal sobre as acusações esdrúxulas de ser assassino, num dos momentos mais hilários do filme. Aqui o filme flerta com o niilismo contemporâneo e com o objetivo de nossa análise.

Mas antes devemos falar de Alan (Christopher Waltz) e Nancy, sendo ele o cínico homem capitalista que vive para a empresa e ela carrega o verniz de que se importa com a educação de seu filho. Alan é o contraponto de Penélope, sendo o homem que vestiu para si a ideologia niilista do dinheiro, do sistema capitalista e é dele a fala que dá título ao filme.

Alan e Penélope são as duas caras da civilização, a arte, cultura e educação versus o dinheiro e o poder. Aqui, portanto, eu peço licença para abrir o leque de interpretações para um nível especulativo.

Se os dois personagens que representam a civilização tem problemas, isso quer dizer que o problema está na civilização que não é essencial, isto é, não corresponde a uma natureza humana possivelmente existente. Podemos então aqui nos aproximar de Rousseau, novamente, pois para ele – sendo bem resumido – a civilização corrompe o homem. Se as duas caras da civilização fracassam em dar ao homem uma vida mais emancipada e autêntica nasce o niilismo, esse que é carregado pelo pequeno burguês comum que é Michael, o homem econômico que é Alan e Nancy que quer ser simplesmente uma mãe comum. Penélope, porém ainda não se deu conta que a cultura, para o bem ou para o mal, também é uma maneira de coerção, que muitas vezes traz bons resultados, mas sozinha não muda a realidade de fato, por isso seus valores são hipócritas e alienantes.

Outro aspecto interessante é a politização da vida privada dos personagens, o que caracteriza os tempos contemporâneos, afinal porque o fato de Michael ter sido cruel com o hamster tem tanta importância e a insistência de Penélope, que embora diga ser imparcial, acaba sempre relativizando seu discurso para atacar o filho do outro casal. Em uma parte mais perto do fim do filme, Penélope esbraveja dizendo que vítima e culpado não são os mesmos, numa afirmação que aumenta a proporção do problema em questão.

Parece-me então que o filme evidencia a decadência dos valores ocidentais, o niilismo que sobra da derrocada desses valores e a mudança da política e o fazer do político da esfera do público para o privado, o que acaba aumentando a confusão do homem contemporâneo e o faça afundar nas águas do niilismo. Essa situação paradigmática desagua na pedagogia que pais preocupados querem dar aos seus filhos, mas não sabem qual caminho seguir.

A última cena então, nos parece reveladora, pois podemos ver Ethan e Zachary, os pivôs do conflito, fazendo as pazes e brincando amigavelmente no parque, o que nos traz de volta à Rousseau:“Deixai as exceções se revelarem, se provarem, se confirmarem muito tempo antes de adotar para elas métodos particulares. Deixa a natureza agir bastante tempo antes de resolver agir em seu lugar, temendo contrariar suas operações (…) . Não vedes que o perdeis muito mais empregando-o mal do que não fazendo nada.”

Anúncios