Abe Lucas e Raskólnikov: Um Diálogo

Quem conhece a filmografia do octogenário diretor Woody Allen sabe que seus personagens são sempre seus alter-egos que por sua vez podem ser vistos como a representação arquetípica do homem neurótico contemporâneo.

Esses personagens sempre se preocupam com a morte, o sentido da vida e sentem-se estrangeiros perante um mundo que consideram absurdo.

O personagem da vez é Abe Lucas (Joaquim Phoenix), um professor de filosofia que passa por uma depressão devido aos seus questionamentos existenciais. Lucas encontra-se entorpecido, não vendo sentindo algum para a sua vida.

Allen situa muito bem o público nas questões que quer tratar referenciando inúmeros filósofos existencialistas como Kierkegaard, Sartre e o fundador da fenomenologia*, Edmund Husserl.  Allen sempre foi existencialista e sua admiração por Bergman, outro grande existencialista, nos deixa sua visão de mundo mais nítida.

Tudo muda quando Abe num restaurante, ouve uma mulher reclamando de um juiz injusto que tirou a guarda de seus filhos. Abe então comenta com a sua aluna/affair que talvez o mundo fosse melhor sem aquele indivíduo. Mais tarde Abe decide matá-lo.

Nessa altura deve vir uma imagem na cabeça do leitor, a lembrança de um jovem russo, o nosso querido e atormentado Raskólnikov, personagem de Crime e Castigo de Doistoévski que chegou as mesmas conclusões, embora seu alvo fosse uma senhora pensionista, a relatividade moral é a mesma.

Allen já trabalhou esse tema antes em “Crimes e Pecados” (1989), mas o que movia os personagens eram situações diferentes, enquanto a personagem do filme de 1989 tem a ideia de homicídio para encobrir um adultério, o motivo de Abe é totalmente existencial. Depois de tomar a decisão que vai matar o tal juiz, Abe encontra nesse projeto um sentido efetivo e autêntico de existência.

O mais interessante nessa presente obra é que há uma diferença fundamental entre Abe Lucas e Raskólnikov no que tange a suas atitudes frente as suas próprias ações. Raskólnikov sente culpa por todo o romance, uma culpa que o oprime, Lucas ao contrário sente uma libertação nesse ato. A personagem se justifica em uma parte do filme, dizendo que finalmente fez algo efetivo que mudou a realidade e não apresenta nenhum sinal de remorso.

Essa diferença pode vir do fato de Dostoiévski ter sido cristão e Allen, por sua vez ser ateu. Enquanto a redenção de Raskólnikov nos lembra que há valores inatos e eternos Allen já mostra que os valores são produtos de escolhas humanas. Portanto, mesmo que um ateu possa ter uma moralidade firme, sua noção de valores não é inata e tão pouco transcendente, podendo ser mudada por suas próprias escolhas. Essa é a diferença fundamental entre Allen e Dostoiévski.

Lucas, por sua vez aproxima-se mais da empiria, isto é, da vida material, hic et nunc* e as sensações que ela proporciona. Não podemos esquecer que o  que desencadeia a mudança de direção de Lucas foi não ter conseguido ter uma relação sexual satisfatória com sua colega de trabalho. Allen parece inspirar-se mais no existencialismo ateu francês, tendo em Lucas muitas semelhanças, no que tange ao sentimento de alienação no mundo, com Meursault, personagem principal de um romance de Albert Camus que também só se preocupa com as sensações físicas do mundo.

Quanto as suas relações, o personagem também tem a mesma atitude, não corresponde o amor de Jill (Emma Stone) embora essa esteja atraída mais por uma curiosidade intelectual por Lucas, do que um amor sincero. Aqui Allen nos mostra certa descrença nas relações humanas e um pessimismo nos caminhos que o mundo toma.

Lucas não tem nenhuma virtude e me parece – sendo essa uma especulação do autor do texto – decadente da parte do personagem só achar um sentido na existência quando mata outro homem. Essa atitude é um ato simbólico de libertação, onde o ser liberta-se das regras humanas e sente que segura o mundo numa corda em seus dedos. Nosso heroí  existencialista portanto revela-se um homem com sede de poder, não o poder político é claro, mas o poder de agir, sem amarra alguma. Lucas flerta aqui com uma incomum ligação entre Nietzsche e Kierkegaard, pois é um homem que quer seguir seus instintos livremente, além do bem ou do mal e parece querer dar o salto que una o absoluto com o instante.**

É claro que trata-se apenas de uma especulação e que aqui resumimos filosofias altamente complexas de inúmeros filósofos, mas é evidente que Allen trabalha com essas referências na construção desse bom filme de sua carreira.

Quanto a estética do filme, ressalta-se a marca registrada de Allen em fazer filmes pequenos com uma fotografia realista e uma mise-en-scène pouco trabalhada que o próprio diretor já deixou explícito em entrevistas que deixa os atores livres nesse departamento.

Phoenix entrega uma boa performance de um homem levemente sinistro e perturbado e o resto da construção do filme é a mesma dos outros vários filmes de Woody Allen.

“Homem Irracional” então nos apresenta o desespero de um indivíduo que frente ao vazio de sua existência, muito dela causada pela condição de pequeno-burguês neurótico contemporâneo,  e sua solução para “saltar” por sobre esse vazio.

*Hic et Nunc = expressão latina que significa aqui e agora.

** Nietzsche devido a relativização da moral e Kierkegaard no “salto” conceito pelo qual o filósofo exemplifica em seu sistema como o ato que o homem empreende para dar significado a toda a sua existência. Kierkegaard entende o homem como síntese temporal entre o eterno, infinito, absoluto (Deus)) e o relativo, particular e instantâneo homem. O homem portanto só encontra significação para sua vida no salto do particular para o absoluto.

Anúncios