Foi Apenas um Sonho e a Angústia da Liberdade

Aproveitando que um dos objetivos desse blog é falar de sonhos,afinal sonhos são sempre a construção de determinado ideal, nada mais oportuno do que iniciar a coluna de cinema com um filme que fala sobre essas pequenas minhoquinhas que insistem em rondar nossas cabeças. Mas, diferente dos filmes Disney que exploram o lado doce dessas minhoquinhas, evidenciando um idealismo terno e exagerado – afinal de contas, são filmes infantis – “Foi Apenas um Sonho” (Revolutionary Road,EUA,2009. DIR: Sam Mendes), ao contrário parece perguntar se podemos sonhar e se adianta sonhar quando esses sonhos não se realizam na realidade.

April (Kate Winslet) e Frank Wheeler (Leornardo DiCaprio) são um jovem casal que vive no subúrbio de Connecticut com seus dois filhos na década de 50. A imagem de casal perfeito esconde a frustração de ambos que almejam ter uma vida mais livre e espontânea.

O filme é uma adaptação cinematográfica do romance de Richard Yates, “Revolutionary Road”, lançado em 1961. O livro tem uma narração nada pretensiosa sendo bem acessível, ganhou grande prestígio da crítica, mas é desconhecido pelo grande público, certamente pelas cores sombrias pelas quais retrata o “sonho americano”.

Essa linguagem despretensiosa é passada ao cinema pela clareza da fotografia e o estado minimalista do cenário. Há de se concordar que há vários apetrechos na cena, mas é evidente que se trata de uma contextualização histórica e classista daquela realidade. Essa sobriedade estética também está presente na direção de arte, com adereços em sua maioria tons pastel, verde e branco, expressa no filme um limite de realidade bem preciso.A trilha sonora também é bem pontuda e sem exageros. Trata-se de um filme de realidade e se a sobriedade de algum modo é interrompida é pelas emoções dos personagens.

Frank trabalha numa empresa desenvolvedora de computadores e April é uma dona de casa. Nas cenas em que Frank dirigi-se ao trabalho se vê um mar de chapéus azuis e cinzas, numa supressão de indivíduos em uma massa coletiva despersonalizada, mostrando o indivíduo em uma sociedade hipermecanizada.

O ambiente de trabalho de Frank é caracterizado como um lugar insosso e o seu colega de trabalho é um homem cínico e amargo. Entediado Frank tem um caso com uma estagiária no mesmo dia que completa 30 anos e o diálogo que trava com ela é revelador, Frank diz que quando completasse 30 anos queria ser uma pessoa completamente diferente de seu pai, porém lá está ele, fazendo 30 anos e trabalhando na mesma empresa em que o pai trabalhou a vida toda e no mesmo cargo. Isso deixa Frank melancólico, porém quando ele volta para sua casa e é recebido por uma pequena festa feita pela sua mulher e filhos, Frank chora, por culpa. Aqui trabalha-se a complexidade de Frank, um homem insatisfeito pela rotina mais que ao mesmo tempo ama a sua família.

Anteriormente April foi visitada por sua vizinha a qual pediu se podia levar seu filho recém-saído de uma clínica psiquiátrica para um jantar com o casal. April gentilmente aceita.

Depois da festa de aniversário de Frank, April o surpreende com uma ideia inusitada. Frank pode pedir demissão e com o dinheiro do seguro se mudariam para Paris. Lá April arranjaria um emprego de secretária e Frank poderia ficar no ócio para pensar em suas possibilidades artísticas. Frank no começo acha a ideia muito irrealista mas April consegue persuadi-lo.

No jantar conhecemos o personagem filho da vizinha, o matemático P.H.D John que se expressa com uma sinceridade ácida e niilista. Frank e April parecem partilhar de suas ideias e contam para os seus convidados sobre os planos de Paris. Os vizinhos ficam atônitos, John fica desconfiado e pergunta para o casal do que eles fogem e Frank diz: “do vazio sem esperança”. John fica surpreso e diz que é necessária muita coragem para admitir a desesperança.

Aqui nota-se o teor existencialista da obra, por mais que não possamos afirmar precisamente se Yates foi influenciado diretamente por essa filosofia ou só captou as ideias de sua época onde o existencialismo estava em voga. O casal procura algo que não sabe ainda o que é, eles simplesmente sabem que tem horror a vida suburbana, o que nos leva a Sartre que via na vida burguesa, presa em valores imutáveis como família e casamento um tipo de farsa, “uma viscosidade” nas palavras do autor para esconder a angústia da liberdade e da escolha que para Sartre é própria da realidade humana.

O fato é que no desenrolar da trama, April fica fatalmente grávida o que deixa Frank aflito, paralelo a isso é ofertada a Frank uma promoção, onde seu chefe é muito persuasivo e toca no assunto das possibilidades e escolhas. Frank fica abalado e resolve cancelar os planos de Paris.

Em um novo jantar, Frank conta para John que como April ficara grávida eles não irão mais à Paris. John então fará, a meu ver, o papel de consciência dos personagens principais.

Para ele, Frank acovardou-se e está usando o bebê como pretexto para não se conhecer, ou em termos sartrianos, Frank usa o bebê de má-fé para não ter a responsabilidade de escolher. Frank usa o acontecimento da concepção do bebê para determinar o seu futuro. Em palavras coloquiais, Frank usa o bebê como “desculpa”.

No desenrolar da trama, April resolve abortar a criança em casa, porém ela sai ferida do procedimento e morre. April sem dúvida fez uma escolha mas a fez de má-fé ou baseada em sua liberdade? É claro que Frank aqui cumpre o papel do viscoso, aquele que para não vivenciar a angústia da liberdade de escolha, apela para a vida confortável familiar. 

Porém April teria outra escolha? O filme acaba sendo determinista em seu final, afinal não há espaço para sonhos e liberdade em nossas vidas?

O aborto evidencia o não querer ter um filho de April, mas o filme acaba sendo ambíguo se April usou o aborto para um pretexto de suicídio (má-fé) ou se não queria que o bebê interferisse em sua liberdade, ou se as possibilidades visadas por April eram apenas fantasia e ele não queria aceitar a sua realidade.

Posto isso esse pequeno e sóbrio filme acaba sendo cruel, como quase todas as obras de arte existencialistas, fala dos nossos sonhos que acabam por ser nada se não tivermos a capacidade de viver a angústia de escolher. A responsabilidade posta por cima dos personagens chega a ser sufocante e descreve de maneira exata essa angústia. Assim, lança-se a pergunta: Nos atreveremos a sonhar?

Anúncios